FREDERICO ROCHAFERREIRA
www.sitefilosofico.com
Membro da Oxford Philosophical Society



C. Prandelli




A ÉTICA APARENTE




   
DOS BRASILEIROS



Por Frederico Rochaferreira



C

erta vez falando para um grupo de estudantes de diferentes áreas do conhecimento sobre o lado sombrio do futebol, comecei perguntando se todos ali eram torcedores e a resposta foi que sim. Lhes fiz ver que em sendo torcedores, consumiam o produto futebol e assim; sustentavam esse negócio, no que a resposta foi positiva. Perguntei se tinham conhecimento das ações marginais que fazem parte desse negócio, como a corrupção e a falta de ética e todos disseram que sim. Perguntei se também se indignavam com tais ações e todos, unanimemente, concordaram. Então perguntei se não era uma contradição, condenarem e se indignarem com um determinado produto, mas ter o hábito consumi-lo. Em outras palavras é como se eu condenasse uma determinada droga, mas a consumisse, portando a minha indignação, minha postura e conduta ética não é verdadeira, é aparente e isso é grave; um olhar mais atento pode enxergar essa atitude para além da paixão do torcedor e da torcedora e vê-la fixada na sociedade.

Agora, essa tese não é verdadeira, a verdade é diametralmente oposta. É a sociedade insegura em seu caráter, falha em suas ações éticas e morais que se mostra ora como jogadores, ora como árbitros, ora como dirigentes, ora como técnicos, ora como agentes públicos e privados ligados ao futebol, ora com simples torcedores, todos envolvidos com as ações marginais que rodeiam o lucrativo e criminoso negócio do futebol.  Voltei-me aos estudantes e disse, que aquela ética que demonstravam; se indignando com a corrupção no futebol, era uma ética aparente, sem qualquer valor real e a partir do momento em que consumiam o produto futebol; comprando a camisa de seu clube, indo aos estádios, assistindo os jogos no pay-per-view e na tv aberta; escutando as resenhas no rádio; lendo-as nos jornais e revistas; sustentavam esse negócio e portanto, não tinham o direito de se indignarem com as ações marginais; com a corrupção e a falta de ética e moral no futebol, porque eram parte integrante dessa corrupção.

Todos ouviam com atenção e certa perplexidade, quando um dos estudantes, pediu a palavra e disse que; apesar de agora entender essa cumplicidade, não compreendia o porquê de assim ser, no sentido em que, tendo agora esse conhecimento, ainda não se sentia atraído a ter um comportamento distinto. De certo modo essa dúvida me parecia comum a todos, então lhes disse que o fato de terem agora conhecimento de que são cumplices do negócio espúrio do futebol, não será suficiente para que se afastem dessa cumplicidade e a explicação é simples: Dentre aqueles que gravitam ao redor do negócio futebol, estão as empresas de comunicações e estas, cumpre o papel entre outros, de entorpecer o cidadão desde a mais tenra idade ao vício de torcer e ter paixão por um determinado clube, a mídia destila doses nada homeopáticas de ópio esportivo, que impregna a mente anos a fio de ouvintes e leitores, que aos poucos vai entorpecendo a mente dos mais simples, ocupando o vazio deixado pela carência de bens materiais e intelectuais. O resultado dessa equação é que muito cedo temos uma massa de jovens doutrinados, alucinados por seus clubes, uma paixão que os segue até à morte e não se apercebem que são uma massa de desorientados, continuamente manipulados para sustentar esse obscuro, corrupto e lucrativo negócio. Faço ver a eles que toda doutrina é perigosa e não raro se eleva ao fanatismo, se no futebol temos as brigas entre torcidas; na religião o fanatismo cristão levou milhares à fogueira com a Santa Inquisição e na política temos o exemplo da juventude Hitlerista e ainda nos dias de hoje; temos a questão Islâmica. O doutrinamento; seja ele esportivo; político ou religioso; torna o homem e a mulher seres desorientados, incapazes de ter consciência de seus atos e o alcance de suas ações; por isso e muitas vezes, quando tomam ciência de que, aquilo que fazem, não é correto fazer, esta ciência por si só; não tem a força suficiente para remover a doutrina que lhes impregna o caráter e lhes dirigem as ações.

Para ilustrar a questão da ética aparente e o conflito moral entre torcedor e cidadão, citei o caso ocorrido com o técnico italiano Cesare Prandelli:

Quando da realização da Copa das Confederações aqui no Brasil, uma das seleções participantes foi a Itália, que tinha como técnico; Cesare Prandelli. Em entrevista ao jornal "La Gazzetta dello Sport", Prandelli disse que ficou estarrecido com a disparidade entre riqueza e pobreza encontrada no Brasil, principalmente quando via as milionárias e luxuosas arenas muito próximas às favelas, aos bolsões de miséria.

Segundo ele, era impossível jogar bem depois de perceber tamanho desequilíbrio social e em determinado momento diz: “Como se pode jogar assim”? Esta não era uma pergunta dirigida ao repórter que o entrevistava, era sim; uma reflexão, um pensamento em voz alta, mas dirigida silenciosamente à sociedade brasileira, no sentido de que; como era possível conviver, viver e sobreviver em meio a tamanha desigualdade social, sem promover qualquer reação.

Bem, Prandelli não está aqui, portanto não podemos responde-lo; mas se estivesse, diríamos: Pode Prandelli, pode, porque o homem é produto do meio e ao meio se adapta, se adapta à riqueza e se adapta à miséria, se adapta à sabedoria e à ignorância, ao meio virtuoso e ao meio vicioso com muita facilidade, portanto se pode jogar assim, tanto que se joga, não tão bem quando o jogo ainda era um esporte, mas se joga, até em excesso.

Agora, o que o Prandelli viu, nós vimos, nós vemos e continuaremos a ver e nossos filhos verão e nossos netos também, o que ele disse, muitos de nós dizemos, com a mesma linha de pensamento, mas o que ele sentiu, nós não sentimos; enquanto suas palavras significam um verdadeiro sentimento, perplexidade e desejo de mudança; nossas palavras, as mesmas palavras, só significam palavras, porque estamos todos habituados, adaptados, ao que é errado e aviltante. Sim, somos produtos de um meio infértil, impróprio ao bom e verdadeiro desenvolvimento de conhecimento e de valores, por isso, nossas palavras diferem tanto de nossas ações, seja qual for o papel que venhamos a desempenhar dentro da sociedade.