FREDERICO ROCHAFERREIRA
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Membro da Oxford Philosophical Society



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A Razão Filosófica (trechos)

Frederico Rochaferreira



A traição da Igreja ao fundador da sua Doutrina ou a fábula de Cristo


d

evemos olhar o mito como um grande quebra cabeça da história, cujas peças esparsas precisam ser unidas corretamente e, mesmo assim, não é certo que as peças unidas possam vir a formar um quadro de acontecimentos reais.

É provável que a causa primeira da distorção de fatos e acontecimentos em mitos ou fábulas, estivesse na incompreensão da língua, assim como aconteceu, em grande medida, com a criação do romance cristão, contudo, superada essa incompreensão, julgou-se bom e necessário à ordem dos acontecimentos, manter o mito fabuloso, da história.

Alina: ah! Sobre o Novo Testamento, tenho forte inclinação em crer naqueles que dizem que sua redação final tem muito pouco dos escritos primitivos, mas não acredito que isso se deva à incompreensão da língua, Lancio, como dizes, pode ter ocorrido com os mitos.

Lancio: eu entendo o que queres dizer. Você fala do Cristianismo de Constantino, quando o imperador romano deu status de religião de Estado à seita dos galileus e, nesse tempo e momento, toda redação do texto religioso não passa pela incompreensão do semítico e sim pelo interesse do Estado e da Igreja. Mas quando o movimento messiânico judaico, nos seus primeiros anos, passa a aceitar não judeus em suas sinagogas, sua literatura, até então restrita a um pequeno grupo de zelosos, passa a ser redigida indiscriminadamente, formando um sem números de evangelhos permeados de simbolismos que não poderiam ser compreendidos plenamente pelos não judeus e como era bom aos olhos e às intenções daqueles que estavam por trás desse movimento, muitas das incompreensões passaram a ser propositais (143).

Para uma visão do simbolismo nos textos religiosos, o Zohar é uma fonte brilhante. Um exemplo; com a palavra deserto: Em Samuel I, IV, 8, está escrito: "Estes são os Deuses que golpearam os egípcios com toda a sorte de pragas no deserto". DESERTO na expressão dos sábios judeus significa linguagem, fazer por meio das palavras, como em: “Quem é este que sobe do deserto?” (Cântico dos Cânticos, III, 6) , análogo à expressão “E tua linguagem é graciosa” (Cântico dos Cânticos, IV, 3), ou “A palavra se levantou da montanha” (Salmos LXXV,7). Similarmente “Voz que clama no deserto” (Isaias 40, 3). No Novo Testamento “A voz que clama no deserto” ( Marcos I,3, Lucas III,4, Mateus III,3), Portanto, como nunca existiu praga no Egito, a não ser pelos escritos de um povo que em determinada época, oprimido, os amaldiçoou, a História nunca evidenciou qualquer vestígio dessas pragas, apesar dos esforços. Percebemos que uma forma alegórica na redação de um texto pode custar muitos estudos e investigações mal sucedidas.

Também a redação do Novo Testamento se utiliza dessas alegorias, e com as figuras mais proeminentes do seu Corpo de Doutrina. (Sefer Ja Zohar, prologue,125 – 129).

A referência comparativa da incompreensão da língua extensiva ao romance cristão, diz respeito aos primeiros anos do messianismo judaico, quando a quarta filosofia (144) transpõe os portões de Jerusalém e ganha a mente e os corações dos gentios.

Alina: tens razão, a primeira lembrança que me veio foi o Concílio de Niceia, por isso minha descrença quando falou em incompreensão da língua. Mas o que estou percebendo é que a história cristã não foi gerada somente pelo simbolismo piedoso daquela gente, mas também pela utilização da incompreensibilidade do símbolo como fundamento da crença, ou estou pensando de forma errada?

Lancio: pensas corretamente, Alina. Houve a princípio a incompreensão do real significado das palavras, já que os nomes hebraicos, em sua maioria, eram sentenças abreviadas (145) e outras palavras que além de serem sentenças, eram tidas como códigos, próprias da astúcia dos escribas, o que hoje é facilmente identificável na literatura periférica judaica, como o Zohar, ou o “Livro do Esplendor”.

Alina: perdoe, Lancio, mas quando falas em quarta filosofia transpondo os portões de Jerusalém...?

Lancio: nos últimos séculos, Alina, os hebreus se dividiam em três partidos ou seitas ou, como denominou o historiador Flavio Josefo, em filosofias, que eram os Saduceus, os Fariseus e os Essênios. A quarta seita, partido ou filosofia, surge na Judeia por volta do ano 6 DC, fundada por Judas, O Galileu, um sofista cuja família ficaria em evidência por várias décadas e suas ações culminaram com dois registros históricos: o desaparecimento do reino judeu e o nascimento do Cristianismo. É uma longa e bela história, Alina.