FREDERICO ROCHAFERREIRA
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Membro da Oxford Philosophical Society



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A RAZÃO FILOSÓFICA (trechos)

Frederico Rochaferreira



A origem de Deus no imaginário dos homens


L

ancio: e da mesma forma que entendemos que aqueles que estão impedidos do exercício pleno da razão, pela fé, morrem desnutridos desse conhecimento, entendemos também que vivem e morrem felizes por não tê-lo adquirido, enquanto o filósofo vive e morre na angústia do vazio, assim, a verdade que temos como um bem maior pode também ser a de uma multidão de povos que esteja confortável em sua fé, um mal maior.

Alina: saber ou não saber sobre a natureza de Deus, eis a questão! Em sabendo, descobrimos nossa orfandade, a certeza da solidão eterna, do nada, do absurdo da vida que definitivamente não faz sentido. Em ignorando, há um mundo de esperanças sem questionamentos, a vida toma um sentido, há um Pai que nos protege nas horas dolorosas da vida e a quem nos apegamos na hora da morte. A ignorância é um balsamo!

Lancio: e esse vem a ser o objetivo último das religiões.

Alina: Lancio, gostaria de voltar a Crítias. Fiquei impressionada com a naturalidade e racionalidade do texto, muito por vir de uma época tão antiga, povoada por deuses e mitos. Mas me chama a atenção o fato das Leis apresentarem Deuses antropomórficos. Os Deuses das Leis não se espelharam nas primeiras adorações dos astros ou nos fenômenos da natureza, por isso creio, deve haver entre as primeiras manifestações de adoração e o temor pelas Leis Divinas, uma “raça perdida de Deuses” que inspirou a origem desses últimos, não é certo?

Lancio: sim, isso ocorreu. A inspiração dos deuses legislativos não foi a adoração dos astros em seu passeio pelos céus sempre seguindo o mesmo ritual, apesar de ter sido a observação desses movimentos rítmicos, que os antigos habitantes da Hellas denominaram “deuses”, que passou a nominar todas as divindades subsequentes. Se nos propusermos a olhar para o céu numa bela noite de lua e estrelas, observando o correr desses corpos na imensidão do universo, a esse comportamento podemos chamar de contemplação, todavia, os primitivos helenos, a esta contemplação e ao comportamento dos objetos contemplados, deram o nome de deuses (124).

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Lancio... O panteão fenício que conhecemos, apesar de sua antiguidade histórica, é uma tradição tardia se comparada aos relatos de Sanchuniathon, mais corretamente falando, a Taautus, tido como o inventor da escrita (136). Devemos entender que precedem a esse panteão de deuses e deusas, investigações envolvendo o cosmos e suas luminárias, o ar e suas variações e outros fenômenos da natureza, uma verdadeira ciência pré-histórica, mas também fatos e acontecimentos históricos envolvendo clãs e famílias colonizadoras. Foi a ciência investigativa dos primeiros tempos, mais os relatos históricos de fatos e acontecimentos, que Sanchuniathon, em grande medida, transcreveu dos livros de Taautus, mais precisamente de seus comentários (137). 

É notável notar que se os escritos de Taautus eram permeados de comentários, dos quais se serviu Sanchuniathon aos seus próprios, similarmente também Taautus os compilou de autor ou autores mais antigos, portanto mais preciosa se torna a obra do historiador fenício.

Alina: nesse caso toda discussão que envolve a questão mítica- religiosa deveria passar pelo que restou da obra de Sanchuniathon, mas acho que isso não ocorre. Eu mesma, em meus estudos sobre filosofia da religião, nunca tive contato com seus escritos.

Lancio: O nosso ensino é bastante frágil e já falamos sobre isso, assim compreendo que pouco ou nada saiba sobre Sanchuniathon, sua história e seus desdobramentos. Por aquelas peças da natureza, o que sabemos sobre ele, devemos a Eusébio de Cesaréa, o Pai da História Cristã, que utilizou partes de seus escritos para refutá-lo, em seu livro; “Preparação para o Evangélio”, como citei anteriormente. Mas tudo começa com Philo de Byblos, um erudito também fenício, que ao tomar conhecimento da monumental obra de seu compatriota, tratou de traduzi-la ao grego, dando ênfase, no prefácio de sua obra, para a importância de Taautus no contexto da obra. (138) Vale notar aqui a importância e a antiguidade de Taautus como inventor da escrita, que Sócrates, no Fedro, põe na conta de mito, nominando-o como o Deus egípcio Thoyth. A importância e a legitimidade desse personagem, por todos no mundo antigo, sempre foi reconhecida, portanto estamos falando de alguém que pela sabedoria e antiguidade, todos que o sucederam e escreveram a história do mundo ou mesmo a destruíram, nunca o contestaram. Contudo, devemos ir além, ultrapassar os limites do pensamento vulgar e buscar mais da imaginação. Esse homem; que escreveu sobre os acontecimentos cósmicos e os fenômenos da natureza, em tempos tão remotos; continua sendo um personagem enigmático, desconhecido, e sobre o qual não podemos precisar ao certo em que região habitava; por certo não muito distante daquela que viria a ser denominada Suméria

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Lancio... Fato é que Taautus é sobrevivente de uma catástrofe de dimensões globais, que ficou no imaginário e na história como o grande dilúvio e pela veneração que conquistou não nos parece ter sido um sujeito simples, primitivo, mas culto e de boa formação, pertencente a uma sociedade desenvolvida, possuidora de alfabeto próprio, o que permite acreditar em escolas, centros de ensino, estudos dos fenômenos e mesmo um farto registro histórico, de uma época que sequer temos na memória. Foi nesse longínquo tempo, fixado nas obras de Taautus, que Sanchuniathon mergulhou em busca do conhecimento antigo.

Muitos séculos depois, Philo ao ter conhecimento e contato com essa obra, ficou tão impressionado que não só a traduziu para o grego em nove volumes, mas ele próprio, inspirado no mestre, escreveu também um extenso relato das origens das superstições dos povos, demonstrando ser parte por ignorância, parte por equívoco, as más interpretações posteriores das antigas tradições e dirigindo-se principalmente aos gregos diz que esses, tomando nomes e fatos em sentido errado, foram enganados pela ambiguidade da tradução.

Philo discorre ainda sobre a necessidade da clareza entre o elemento natural e mítico, dizendo ser necessário afirmar claramente que as populações mais antigas, especialmente os fenícios e egípcios de quem todos os povos receberam suas tradições, consideravam como deuses aqueles homens e mulheres que tinham descoberto as necessidades da vida, ou de alguma forma feito o bem para as nações. Desse modo prestavam homenagens, estimando-os como benfeitores e os cultuavam, após a sua morte, em santuários, pilares e altares consagrados a seus nomes. 

Os fenícios tinham grande reverência a esses homens e mulheres e promoviam festivais para lembrar seus feitos, coincidindo com a data de sua morte. Em larga medida, esses personagens eram reis ou rainhas, ou seus filhos, que tinham seus nomes aplicados aos elementos da terra e do cosmos e são os fenícios os primeiros a nos deixar de herança, através de Sanchuniathon, essa antiga tradição que precede, em milhares de anos, o próprio povo fenício. Sanchuniathon, excluindo Taautus, é o mais antigo escritor de que temos conhecimento. Viveu antes dos tempos de Troia e a sua obra diferencia-se não só pela antiguidade, mas por seu testemunho sincero quando diz que é uma transcrição de registros históricos e cosmogônicos extremamente mais antigo; que lhe haviam sido transmitidos tanto pela tradição oral quanto por escrito.

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