FREDERICO ROCHAFERREIRA
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Membro da Oxford Philosophical Society




Por que fazemos o que fazemos?

Por FredericoRochaferreira



Alina: o que falou parece tão complexo, mas ao mesmo tempo é o que todos nós, de certo modo, sabemos, sem que ninguém nos tenha ensinado, que nossas ações tem dois princípios, um físico e outro não físico.

Lancio: certamente, Alina, e são esses princípios que interagem com a questão levantada por Wittgenstein, em suas Investigações Filosóficas (14), ao escrever: “Quando eu levanto o meu braço, é meu braço que se levanta. E surge o problema: o que é que sobra se, do fato de eu levantar o braço, eu subtrair o fato de meu braço se levantar”? Esta pergunta vem, ao longo dos anos, provocando debates, gastando muita tinta, não só por ser o tema que introduziu a “ação” na filosofia contemporânea, mas principalmente por se tratar de um dos capítulos da vida a ser desvendado. A questão a ser resolvida está entre o movimento de levantar o braço e a livre vontade de fazê-lo.
Em primeiro lugar a palavra “ação”, que define os movimentos que visam a um fim, devemos entender como sendo uma “reação”, porque, por ação, deve-se designar a origem que provocou a sua realização e o que denominamos “ação” é sempre uma reação a um impacto de energia recebido. O ato de levantar o braço, mesmo que não haja aparente necessidade, como nos diversos caprichos inteligíveis do fazer algo, é uma ação “reação” voluntária, dependente de estímulos que podem ser do nosso íntimo ou externo para que se realize. Por isso, se levanto o braço por mim mesmo, esta é uma ação “reação” a estímulos recebidos por receptores celulares que interpretam e reagem, provocando a resposta do movimento que o faz levantar.

Alina: se então recebemos um estímulo e o reconhecemos, isso quer dizer que a resposta a esse estímulo já está pronta? Neste caso a ação já existe antes de ser executada?

Lancio: em grande medida, nossas ações “rações” já estão determinadas porque são cumulativas, a partir do momento que são geradas pela primeira vez, passam a fazer parte da nossa natureza, mas um estímulo nunca antes recebido, fará surgir uma nova reação que não estava em nós e que permanecerá em nós e em nossa descendência. A fisiologia desse aprendizado ocorre pela produção proteica e assim a transmitimos a nossos descendentes, como transmitimos as características físicas e intelectuais encontradas nas inteligências excepcionais que sempre vemos surgir. Portanto, se as transmitimos, por certo que as herdamos e todos nós temos um particular conjunto de ações “reações” que caracteriza o comportamento individual de cada indivíduo, que permanece latente, arquivado, à espera dos estímulos que lhe deem vida e movimento, da mesma forma que uma arma municiada e engatilhada fica à espera de quem lhe puxe o gatilho.

Alina: Lancio, sei que foge à filosofia, mas não posso evitar. Como é possível se produzir uma ação ou um comportamento? É o mesmo que aprender?

Lancio: quando dizemos aprender, estamos interpretando uma linguagem que caracteriza essa ação “reação” cuja construção física e, além da física, ainda não dominamos, não obstante os esforços das pesquisas nesse sentido, dentro de seus limites éticos e de conhecimento, tem procurado estudá-la. A gênese de uma ação “reação”, do ponto de vista fisiológico, ocorre quando o organismo detecta um estímulo primeiro, nunca antes experimentado. A partir desse momento, nosso organismo interage com o estímulo e desencadeia uma série de reações internas que resultará numa reação externa física ou perceptiva, que chamamos de resposta. Por traz de cada resposta que determina ações e comportamentos, sejam os mais antigos ou os mais recentes, está a produção de proteínas específicas que agirão de imediato e do mesmo modo quando detectarem estímulos semelhantes, como aquele primeiro que as fez ganhar vida e, por ter origem proteica, será transmitida geneticamente (15).

Na linha tênue que separa filosofia e ciência, temos as experiências realizadas por George Ungar... (16)

Do livro A Razão Filosófica